
Quem passa pela BR-101 em Porto Belo provavelmente já olhou para ele. O velho avião estacionado ao lado da rodovia virou referência para motoristas, turistas e moradores da região há décadas. Mas pouca gente conhece a verdadeira história da aeronave e a confusão envolvendo dois acidentes aéreos em Santa Catarina.
Afinal, o famoso “avião da BR” caiu em Joinville ou em Navegantes? A resposta é curiosa: os dois lados têm um pouco de razão.
A história começa em 1977, quando duas aeronaves modelo YS-11, turboélice japonês conhecido como “Samurai”, sofreram acidentes em aeroportos catarinenses em um intervalo de poucos meses.
O primeiro caso aconteceu na madrugada de 29 de abril de 1977, em Navegantes. A aeronave YS-11A-202 prefixo PP-CTI, da companhia Cruzeiro do Sul, operava um voo cargueiro dos Correios e transportava apenas dois tripulantes técnicos. Em meio ao forte nevoeiro e baixa visibilidade, o avião saiu da pista durante o pouso e teve danos severos, incluindo o trem de pouso e a parte frontal.
Meses depois, em 17 de agosto de 1977, outro avião praticamente igual, o YS-11A-202 prefixo PT-CTE, saiu de São Paulo com 41 pessoas a bordo. A aeronave tentou pousar em Curitiba, mas o mau tempo impediu a operação. Depois, tentou pousar em Navegantes, também sem sucesso, até alternar para Joinville.
Já no fim da tarde, sob chuva intensa e forte nevoeiro, o avião tocou a pista além do ponto seguro, sofreu aquaplanagem, derrapou e saiu da pista do aeroporto de Joinville, parando próximo ao Rio Cubatão. Apesar do susto e da cena impressionante da asa parcialmente dentro do rio, ninguém morreu e não houve feridos graves.
Foi aí que nasceu a confusão que atravessa gerações. Para evitar a perda de duas aeronaves, a companhia aérea decidiu aproveitar peças do avião acidentado em Navegantes para recuperar o avião que sofreu o acidente em Joinville. Um voltou a voar. O outro virou doador de peças e acabou abandonado por anos no aeroporto de Navegantes. E justamente esse avião abandonado é o que, anos depois, ganharia fama em Santa Catarina.
A sucata acabou adquirida pelo empresário Cidio Sandri, sendo levada para Itajaí, onde permaneceu em frente ao antigo Supermercado Fazendão, da Rede Vitória, no bairro Fazenda, área onde atualmente fica uma unidade da Havan.
Na época, o avião virou atração na cidade e até inspirou o nome do tradicional “Samuray Lanches”, conhecido até hoje em Itajaí. Depois, a aeronave foi adquirida por Eduardo Dandolini, ex-presidente do Aeroclube de Tubarão e apaixonado por aviação. O avião foi transportado em carretas-prancha de Itajaí para Tubarão e posteriormente levado para Florianópolis, onde virou a famosa pizzaria “Aeroflop”, instalada na Beira-Mar Norte.
Anos mais tarde, a aeronave ainda passou pela região de Canasvieiras até chegar ao destino atual: um posto de combustíveis às margens da BR-101, em Porto Belo.
Fabricado no Japão no período pós-Segunda Guerra Mundial, o YS-11 ficou conhecido como “Samurai” e marcou época na aviação regional brasileira durante as décadas de 1960 e 1970.
Hoje, longe das pistas e dos céus, o antigo turboélice segue chamando atenção de quem cruza o litoral catarinense. O que poucos imaginam é que aquela estrutura parada ao lado da BR já enfrentou nevoeiro, acidentes, aeroportos lotados e uma longa viagem pela história de Santa Catarina.

Foto: Arquivo da antiga Churrascaria Avião - Fonte: @canalmundosc