O que você não vê antes de a notícia chegar ao seu celular
Pressa, boatos, ataques e desconfiança: os desafios de quem faz jornalismo todos os dias, e por que eles também são um problema seu
Você leu a notícia em trinta segundos, no intervalo do trabalho, rolando a tela do celular. Mas é bem provável que, por trás daqueles poucos parágrafos, tenha havido horas de telefonemas, mensagens sem resposta, informações desencontradas, uma foto que precisou ser checada e um título reescrito várias vezes.
Nesta coluna, quero mostrar justamente esse lado que o leitor não vê. Não para pedir aplauso, mas porque os desafios de quem faz jornalismo hoje dizem muito sobre a qualidade da informação que chega até você.
A corrida contra o print
O primeiro desafio é a pressa. Hoje, antes de qualquer jornal confirmar um fato, ele já está circulando em grupos de WhatsApp, quase sempre em forma de print, áudio ou vídeo cortado, sem data, sem lugar e sem fonte. E o leitor cobra: "por que vocês ainda não deram?".
A resposta, muitas vezes, é simples: porque ainda não estava confirmado. Jornalismo sério prefere chegar em segundo e certo a chegar em primeiro e errado. Só que essa escolha tem um preço, porque na internet quem chega primeiro leva o clique, mesmo quando está espalhando mentira.
A crise de confiança
O segundo desafio é a desconfiança. Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, da Universidade de Oxford, apenas 36% dos brasileiros confiam na maioria das notícias, o nível mais baixo desde 2014. E 47% dizem evitar notícias com frequência.
O mesmo levantamento mostra que as redes sociais já superam a TV como fonte semanal de notícias no Brasil e que um em cada três brasileiros se informa por criadores de conteúdo. Muitos fazem um bom trabalho. Mas o fato é que hoje qualquer pessoa com um celular disputa a atenção do público com quem tem o compromisso profissional de apurar, ouvir os dois lados e corrigir quando erra.
A inteligência artificial chegou à mesa
Agora, um novo personagem entrou na história: a inteligência artificial. Segundo o mesmo relatório, 13% dos brasileiros já usam chatbots de IA toda semana para se informar. A tecnologia ajuda a redação em muitas tarefas, mas também facilita a produção de imagens, áudios e vídeos falsos cada vez mais convincentes. Checar o que é real nunca deu tanto trabalho.
Fazer jornalismo também tem risco
Existe ainda um desafio que pouca gente comenta: o da segurança. Segundo a Federação Internacional de Jornalistas, 128 jornalistas e profissionais da mídia foram mortos no mundo em 2025. No dia a dia, o risco aparece de formas menos extremas, mas constantes: ameaças, ofensas nas redes sociais, pressão de quem não gosta de ver o próprio nome numa reportagem.
No jornalismo local, isso pesa ainda mais. O repórter do interior cobra o prefeito que encontra na padaria, noticia o crime do bairro onde mora e publica a denúncia sobre alguém que conhece. Não há o anonimato de uma grande redação. Há coragem, e às vezes bastante solidão.
E o que você tem a ver com isso?
Tudo. Porque informação de qualidade não é só responsabilidade de quem escreve. É também de quem lê e compartilha. Algumas atitudes simples fazem diferença:
- desconfie de print sem fonte, sem data e sem link;
- leia além do título antes de compartilhar;
- quando algo parecer bom ou ruim demais para ser verdade, procure se algum veículo confiável publicou;
- valorize o jornalismo da sua região: compartilhe o link da matéria, e não o print dela.
Nas próximas colunas, vou continuar abrindo esses bastidores. Porque quanto mais o leitor entende como a notícia é feita, mais difícil fica enganá-lo.









